Elaine de Campos: a mãe que transformou a dor em forças para cuidar da filha
A história de Elaine Aparecida de Campos, de 57 anos, é marcada por desafios profundos, escolhas difíceis e uma dedicação que redefine o significado da palavra amor. Professora por 32 anos na rede pública — no Estado e na Prefeitura — Elaine construiu uma trajetória na educação enquanto enfrentava, em casa, uma batalha diária pela vida da filha.
Natural de Porto Feliz, ela se mudou ainda criança para Indaiatuba. Formada em Pedagogia, Português e Literatura, Elaine também buscou especializações em psicopegadogia, neuropsicopedagogia e psicomotricidade. Muitos desses estudos vieram depois, impulsionados por uma necessidade muito particular: entender melhor a condição da filha Carol.
Ela já era mãe de Nátale e Felipe quando, aos 39 anos, recebeu uma notícia inesperada. Após meses sem menstruar e acreditando estar enfrentando uma menopausa precoce, descobriu que estava grávida.
A gestação, no entanto, foi marcada por complicações graves. A pressão arterial chegou a níveis perigosos e, aos cinco meses, Elaine precisou ser internada. Durante um pico de pressão, houve descolamento de placenta. O parto de emergência aconteceu em poucos minutos. Carol nasceu com apenas cinco meses de gestação, com apenas 500 gramas.
A bebê passou seis meses na UTI, enfrentando uma série de complicações, entre a vida e a morte. Entre elas, sepse, retinopatia da prematuridade — que exigiu três cirurgias — e problemas respiratórios graves.
Os prognósticos médicos eram desanimadores. Elaine ouviu diversas vezes que a filha talvez não sobrevivesse. “O primeiro neurologista disse que ela ia vegetar em cima de uma cama”, conta. Mas a mãe nunca aceitou aquela sentença.“Eu dizia: não, ela vai passar por isso.”
A rotina era intensa. Elaine conseguiu, na Justiça, o direito a um atendimento home care 24 horas — algo raro na época. Mesmo assim, a jornada exigia decisões delicadas. Algumas cirurgias foram recusadas para evitar o risco de infecções hospitalares.
A reconstrução da traqueia foi feita em três cirurgias: a primeira ela tinha 16 anos, que durou 11horas e meia pela complexidade, as segunda e terceira depois de 1 ano e meio.

O luto pelo filho ideal
Além dos desafios médicos, Elaine enfrentou uma transformação emocional profunda. Ela descreve um processo vivido por muitas mães de crianças com deficiência: o luto pelo filho idealizado. “A gente vive um luto. Mata o filho ideal e depois aceita o filho real.”
Para ela, qualquer deficiência exige uma dedicação intensa. No caso de Carol, as limitações são múltiplas e severas.
Nesse período difícil, Elaine também enfrentou outra dor: o abandono do marido. Segundo ela, essa é uma realidade comum entre mães de crianças com deficiência.“Essa é a regra. Muitos maridos largam. Eles fogem da responsabilidade.”
Mesmo assim, Elaine nunca impediu o contato do pai com a filha. “Ele vem vê-la todos os sábados. Nunca tirei o direito dela de ter esse vínculo — e posso dizer que ela ensinou a ele como amá-la.”
Apesar de tudo que viveu, Elaine diz que se sente em paz. “Sou muito feliz. Já quiseram me arrumar marido, mas uma mulher não precisa de marido para ser feliz. A paz que tenho em casa hoje é muito mais preciosa.”

Superação e alegria
Contra todas as previsões médicas, Carol surpreendeu. Hoje, com 20 anos, ela anda, fala, é alfabetizada e mantém uma rotina cheia de atividades. Frequenta aulas de dança para pessoas com deficiência, faz inglês e adora jogos no celular.


“Ela é muito alegre. Quem convive com a Carol tem o privilégio de conhecer uma luz muito especial.”
Para Elaine, a filha tem uma força de vida impressionante.“A luz e a vontade de viver dela são fantásticas.”
Fé, espiritualidade e autoconhecimento
Ao longo dessa caminhada, Elaine buscou apoio em diferentes formas de espiritualidade. Criada em uma família católica — o pai chegou a ser seminarista — ela também encontrou equilíbrio na filosofia budista, na meditação e no autoconhecimento.
Durante períodos de grande estresse, chegou a vivenciar experiências espirituais que interpreta como desdobramentos de consciência. Com o tempo, aprendeu a lidar com essas sensações e encontrou uma forma própria de equilíbrio.
A meditação e a espiritualidade ajudaram inclusive a superar momentos de depressão. “Hoje não tomo mais antidepressivos. A prática espiritual me trouxe equilíbrio.”
Uma vida dedicada
Mesmo após décadas como professora — conhecida por acolher alunos considerados difíceis — Elaine reorganizou completamente a vida para cuidar da filha.
“Muitas mães atípicas vivem isso. Há crianças com níveis muito severos de dependência. Algumas mães nem conseguem ir ao banheiro sozinhas.”
Ela reconhece que, apesar das dificuldades, teve acesso a tratamentos graças ao convênio de saúde — algo que muitas famílias não têm.
A maior lição
Depois de tantos anos de luta, Elaine acredita que a maior mensagem de sua história é simples.“A vida e a vontade de viver precisam prevalecer. Não podemos deixar as dificuldades vencerem a gente.”
E, ao olhar para a filha, ela tem certeza de que valeu a pena lutar. “Ela me ensinou a amar.”
Ela também destaca a importância da rede de apoio entre mulheres. “Tenho um grupo de amigas e nos reunimos para conversar. Isso é muito importante para todas as mulheres.”
