CidadeGeral

Especial Dia das Mulheres: Vânia Boscolo e o acolhimento aos refugiados

A história de Vania Boscolo, de 54 anos, é marcada por educação, trabalho e, principalmente, solidariedade. Evangélica, terapeuta e educadora aposentada, ela transformou a vontade de ajudar o próximo em uma missão de vida que hoje impacta centenas de pessoas refugiadas em Indaiatuba.

Vania chegou à cidade em 1978, ainda criança.Desde cedo aprendeu com a mãe, Adelina Rossi Boscolo, o valor de estender a mão a quem precisa. “Minha mãe gostava muito de ajudar as pessoas, eu cresci nesse meio”, lembra.

Educação e carreira

Determinada a construir uma carreira na área social e educacional, Vania se formou em Pedagogia, além de fazer especializações em Psicopedagogia e Serviço Social.

Na adolescência trabalhou no comércio e também na antiga fábrica Judith. Depois, prestou concurso público e passou a atuar na rede estadual de ensino. Foram cerca de 30 anos dedicados à educação, incluindo 25 anos na rede estadual, onde chegou a ocupar cargos de direção escolar, principalmente na região de Campinas.

dois anos, Vania se aposentou, mas parar nunca esteve em seus planos. Atualmente trabalha como motorista de aplicativo, atividade que escolheu justamente para continuar ativa e em contato com as pessoas. “Não gosto de ficar parada”, diz.

Um encontro que mudou tudo

A atuação com refugiados começou quase por acaso, em 2019, quando Vania foi a um hospital e conheceu um haitiano que passava por uma situação extremamente difícil.

Ele não tinha onde morar. À noite ficava sentado na recepção do hospital e, durante o dia, trabalhava recolhendo materiais recicláveis. A situação a sensibilizou profundamente. A partir dali, decidiu ajudar.

Com o aumento da imigração após o terremoto no Haiti, em 2010, muitos estrangeiros chegaram ao Brasil enfrentando dificuldades com idioma, documentação e trabalho. Vania começou oferecendo aulas de português em uma igreja emprestada.

Com o tempo, chegaram mais pessoas: haitianos, venezuelanos, africanos e cubanos.

Integration Project

Hoje, Vania é presidente do Integration Project, uma iniciativa voluntária que já conta com 568 pessoas cadastradas. O grupo principal tem seis voluntários fixos, mas em eventos o número de colaboradores cresce.

O projeto não possui CNPJ nem recebe ajuda governamental. As atividades são mantidas por doações e parcerias, incluindo apoio de amigos, do Rotary e de pessoas que ajudam com documentação e encaminhamentos.

Entre as ações realizadas estão:

  • aulas de português
  • auxílio para documentação (CPF, carteira de trabalho e RNM)
  • encaminhamento para emprego
  • arrecadação de móveis e alimentos
  • festas e encontros culturais para integração social

A própria casa da família já serviu de apoio para refugiados. Em um período, o quintal chegou a receber 25 pessoas, abrigadas temporariamente enquanto organizavam suas vidas. “Eles chegam praticamente do zero. A gente ajuda a montar a casa, conseguir trabalho e seguir em frente”, explica.

Histórias de superação

Ao longo desses anos, Vania acompanhou histórias que mostram o impacto da solidariedade.

O haitiano que ela conheceu no hospital, por exemplo, chegou a desenvolver tuberculose e enfrentou muitos desafios. Hoje, sua vida é completamente diferente: abriu uma barbearia, se casou com uma brasileira e tem uma filha.

Outro caso foi o de um venezuelano que participou de um concurso gastronômico promovido pelo Rotary. Ele ganhou R$ 1 mil, comprou ingredientes e passou a vender arepas, prato típico venezuelano, em um trailer. “É muito gostoso ver o progresso deles”, afirma Vania. “Eu ajudo, mas não quero que ninguém fique dependente. A ideia é que cada um construa sua própria vida.”

Muitos refugiados hoje trabalham em empresas da região, incluindo grandes indústrias. Segundo ela, grande parte possui formação acadêmica e fala mais de um idioma, mas enfrenta dificuldades para validar diplomas ou se adaptar inicialmente. “A maioria é muito dedicada. Não faltam, não chegam atrasados e ainda ajudam as famílias no país de origem.”

Acolhimento dentro de casa

Atualmente, uma haitiana vive na casa de Vania há cerca de três meses. A jovem foi vítima de um golpe: uma pessoa prometeu emprego e moradia, mas acabou abandonando-a. “Ela me ligou e estava no aeroporto, sem nenhum dinheiro e sem ter para onde ir. No Haiti, ela tinha uma vida confortável, casa com piscina e empregada, e essa é a realidade de  muitos que perderam tudo. Agora, ela está trabalhando em um hotel e logo conseguirá alugar a própria casa e trazer também as filhas que teve de deixar na República Dominiciana”, conta.

Ações além da cidade

O trabalho voluntário de Vania também chega a outras comunidades. A cada dois meses ela participa de ações na Aldeia Rio Silveira, em São Sebastião.

No local são realizadas oficinas de panificação, pintura e capacitação para construção civil, além de incentivo ao turismo e à venda de artesanato para gerar renda.

Inspiração que vem de casa

Vania acredita que a motivação para continuar ajudando vem das histórias que encontra pelo caminho.

“Eu digo que também sou ajudada. Eles têm muita coragem de enfrentar o novo, de recomeçar em um país diferente”, afirma.

Essa trajetória de dedicação à comunidade já rendeu reconhecimento. Vania recebeu o Prêmio Cidadã Indaiatubana, concedido no aniversário da cidade, e mantém viva a inspiração da mãe, Adelina, que hoje também dá nome a uma rua.

Uma missão de vida

Divorciada e mãe de uma jovem de 24 anos, Vania segue conciliando trabalho, voluntariado e ações sociais.

No Dia Internacional da Mulher, sua história mostra que a força feminina também se manifesta na capacidade de acolher, integrar e transformar vidas.

Para ela, a maior recompensa é ver quem chegou sem nada conquistar autonomia.

“Quando vejo alguém que chegou sem casa, sem trabalho e depois está com a vida estruturada, trabalhando e feliz, sinto que valeu a pena.”

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

error: Content is protected !!