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Graziela Milani: a biomédica que se tornou referência em comunicação pública em Indaiatuba

Nem formada na área de humanas, muito menos em comunicação. Ainda assim, há mais de uma década, Graziela Milani está à frente de uma das pastas mais estratégicas da administração pública de Indaiatuba: a comunicação institucional da Prefeitura. Biomédica de formação, com mestrado e doutorado pela Unicamp, ela construiu uma trajetória pouco convencional dentro da gestão pública — marcada por estudo, organização e uma forte visão estratégica.

Aos 53 anos, Graziela é hoje uma das gestoras mais experientes da administração municipal. Está há mais de 30 anos no mesmo grupo político e já trabalhou com quatro prefeitos. Ao final do atual mandato, poderá inclusive se aposentar do serviço público.

Mas parar parece algo difícil para quem construiu uma rotina intensa de trabalho e desafios.

Raízes profundas com Indaiatuba

Embora não tenha nascido na cidade, Graziela costuma dizer que sua ligação com Indaiatuba é quase de origem.

A família tem uma história antiga no município. Um de seus tios, Láercio Milani, jogou no Primavera, clube tradicional da cidade, antes de seguir carreira no Santos, onde se destacou como goleiro e chegou a disputar competições importantes, incluindo a Libertadores. O pai Marcos Antonio Milani também deixou sua marca no esporte local: foi presidente do Primavera quando o clube conquistou seu primeiro título, em 1977.

“Minha família sempre teve chácara aqui. Quando meus pais se aposentaram vieram morar em Indaiatuba, e eu acabei voltando para cá quando me casei, em 1994”, conta. O vínculo com a cidade é tão forte que ela recebeu o título de cidadã indaiatubana.

Da biomedicina à gestão pública

Formada em Biomedicina, Graziela construiu carreira acadêmica sólida, com mestrado e doutorado pela Unicamp na área biomédica. Inicialmente, prestou concurso público em Indaiatuba para atuar como analista clínica.

Mas o destino profissional tomou outro rumo. Ao longo dos anos, passou a ocupar cargos comissionados em diferentes áreas da administração municipal: foi diretora de Turismo, secretária-adjunta de Desenvolvimento, depois assumiu a própria pasta. Também liderou uma área estratégica de estatística e planejamento municipal.

Em 2013, assumiu a Secretaria de Governo, que englobava comunicação. Para ampliar sua formação administrativa, buscou novas especializações.

“Fui me especializar com MBA em Gestão Pública e Gestão de Cidades. Isso me deu uma visão global da Prefeitura”, explica.

Em 2018, com a saída do então secretário Carlinhos (Carlos Alberto Bargas) Graziela assumiu oficialmente a Secretaria de Relações Institucionais e Comunicação.

A revolução digital da comunicação pública

Quando ela chegou à área de comunicação, o cenário era bem diferente do atual.

“Em 2013 a Prefeitura praticamente não tinha redes sociais. Existia apenas uma página no Facebook que servia basicamente para publicar releases”, lembra.

A mudança começou em 2014, quando apresentou ao prefeito um projeto para ampliar a presença digital da Prefeitura.

“Eu falei que precisávamos abrir as redes sociais e responder a população. Na época a reação foi: ‘você não vai aguentar a demanda’”, conta.

O receio era comum entre gestores públicos: abrir canais diretos de diálogo poderia gerar críticas e pressão.

Mas o projeto avançou. A equipe foi estruturada para funcionar como uma espécie de ouvidoria digital, com atendimento direto ao cidadão. Hoje, o sistema se tornou um dos pilares da comunicação municipal.

“Pensamos a comunicação também como atendimento ao cidadão. Ninguém fica sem resposta.”

Os números mostram a dimensão do trabalho. Apenas em janeiro deste ano foram mais de 20 mil atendimentos via WhatsApp e cerca de 53 mil interações nas redes sociais.

O modelo chegou a receber elogios do Tribunal de Contas.

“A ouvidoria normalmente apenas escuta. Nós escutamos e damos resposta. Isso torna o sistema muito mais robusto”, explica.

Reconhecimento nacional

O trabalho desenvolvido pela equipe de comunicação de Indaiatuba também passou a chamar atenção fora do município.

A cidade foi indicada ao 3º Prêmio Social Media Gov de Comunicação Pública, e Graziela representou a Prefeitura na 14ª edição do Redes WeGov, evento realizado em Florianópolis que reúne especialistas em comunicação governamental digital.

Hoje, a Prefeitura mantém uma presença ativa nas redes e o perfil institucional possui o maior Instagram da cidade.

“Respondemos todo mundo. Isso organiza a casa e evita que as reclamações se espalhem em grupos, porque o cidadão sabe que aqui será atendido.”

Comunicação, política e responsabilidade pública

Para Graziela, um dos grandes desafios da área é separar comunicação institucional de promoção pessoal.

“Os prefeitos ainda confundem muito publicidade institucional com publicidade própria. Como a política é muito personificada, essa linha às vezes fica confusa.” Ela afirma manter rigor nesse aspecto.

“Eu sou muito correta com a função. Apesar de não ter formação em Direito, entendo bastante de direito público. O prefeito tem que aparecer nas redes sociais dele, não nas da Prefeitura.”

Além do trabalho cotidiano, a Secretaria também atua em momentos delicados da administração — funcionando muitas vezes como um verdadeiro gabinete de crise.

“Tem situações que algum gestor gostaria de esconder, mas a imprensa liga, o cidadão entra em contato… Nosso papel é falar da melhor maneira possível.”

Gestão de crise

A experiência na comunicação pública acabou sendo marcada por momentos complexos da política e da administração municipal.

Entre eles, a crise hídrica de 2014, operações policiais com busca e apreensão em 2015 e episódios turbulentos de 2016, quando o prefeito chegou a ser preso duas vezes. Depois vieram novos desafios, como a pandemia.

“A gente vai ficando calejada”, resume. E fugir de crise nunca foi uma opção. “Eu adoro a briga”, diz, rindo, a virginiana nascida em 7 de setembro.

Rotina intensa e mente inquieta

A disciplina é uma marca forte da secretária. Ela acorda todos os dias às cinco da manhã, hábito que mantém desde jovem. Começa o dia na academia — já chegou inclusive a participar de provas de triatlo — e segue para a Prefeitura, onde costuma trabalhar até por volta das 20h.

Nos momentos livres, continua conectada ao trabalho: participa de 21 grupos de WhatsApp com diferentes secretarias da administração municipal.

Mas também cultiva paixões pessoais. Uma delas é a leitura. “Eu sempre estudei muito. Só no ano passado li 49 livros”, conta.

No momento, está lendo oito ao mesmo tempo. Entre eles, “Jesus e Buda”, “Morte Celestial”, além de reler clássicos como “Dom Casmurro” e “Crime e Castigo”.

Entre a organização e a emoção

Separada, Graziela é mãe de João, de 31 anos. E apesar da imagem de gestora técnica e extremamente organizada ela admite que também se emociona.

Recentemente, recebeu uma ligação do filho que a fez chorar. “Ele saiu de um curso e me ligou para agradecer. Disse que sempre lembrava de mim falando da importância da formação.” A fala simples, segundo ela, teve grande peso e lembrou do grande papel que desenvolveu também como mãe.

Uma pausa rara

Nos mais de dez anos à frente da comunicação, Graziela praticamente nunca se afastou da Prefeitura. Agora, fará algo incomum: tirar férias por quase três semanas.

O destino também foge do comum. Ela pretende viajar com uma amiga para o Tibete e o Nepal, em um roteiro de cerca de 20 dias.

“Já me avisaram que tem lugares onde nem sinal de celular existe”, conta.

Talvez, quando esta reportagem for publicada, a mulher considerada uma das mais conectadas de Indaiatuba esteja justamente offline — algo raríssimo em sua rotina.

Uma pausa breve para quem ajudou a transformar a comunicação pública da cidade em um dos principais canais de diálogo entre a administração municipal e a população.

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