Especial

Nayra: a educadora que transformou dor em amor e encontrou na escola sua missão

A história de Nayra Mantovani Vieira é marcada por superação, fé e pela capacidade de transformar as próprias feridas em cuidado com o outro. Hoje educadora em Indaiatuba, ela encontrou na sala de aula muito mais do que uma profissão: encontrou um propósito de vida — acolher e inspirar jovens que, muitas vezes, vivem desafios semelhantes aos que ela enfrentou na infância.

Nascida em São Paulo, mas criada no Rio de Janeiro, Nayra começou a trabalhar ainda muito cedo. Aos 12 anos, já ajudava a sustentar a casa ao lado da mãe e dos irmãos, vendendo salgados de porta em porta. Ao longo da vida, fez de tudo um pouco: foi vendedora de loja, vendeu pães e também trabalhou como faxineira. A família enfrentava dificuldades e a separação dos pais ocorreu quando ela tinha apenas oito anos. A infância também foi marcada por situações de violência e desafios que exigiram uma força incomum para alguém tão jovem.

Apesar de todas as adversidades, Nayra nunca deixou de acreditar que poderia construir uma vida diferente.

Formação de jovens

“Quando olho para aquela menina de 12 anos, sem muitas perspectivas, tenho orgulho de tudo o que consegui construir. Transformei dor em amor e usei minha história como degraus para alcançar meus objetivos”, afirma.

Aos 22 anos, ela deixou o Rio de Janeiro em busca de novos caminhos. Foi em Londrina que conheceu o marido, um gaúcho com quem está há 23 anos. Juntos construíram uma família baseada no companheirismo e no acolhimento das histórias um do outro.

A maternidade também chegou como um presente inesperado. Aos 28 anos, nasceu Joatã, filho que ela considera um verdadeiro milagre. Hoje, aos 17 anos, ele vive uma experiência internacional nos Estados Unidos, participando de um intercâmbio esportivo em Wisconsin.

Antes de se dedicar à educação, Nayra passou cerca de dez anos no mundo corporativo, trabalhando com a empresa Gerdau durante o período em que viveu em Maringá. Mas havia um sonho que sempre falou mais alto: trabalhar com pessoas, ensinar e contribuir para a formação de jovens.

Em 2015, a família se mudou para Indaiatuba, após a transferência do marido para a região de Viracopos. Foi então que Nayra decidiu mudar completamente de rumo profissional.

Autoestima e identidade

Formou-se em Pedagogia, História e Letras, além de realizar pós-graduação em Artes. Há sete anos atua na área da educação e, neste ano, inicia também sua formação em Psicanálise, com o objetivo de ajudar especialmente mulheres que passaram por situações de abuso a reconstruírem sua autoestima e sua identidade.

Na sala de aula, sua trajetória pessoal se transforma em ferramenta de empatia.

“Quando encontro um aluno difícil, muitas vezes consigo enxergar a dor por trás daquele comportamento. Muitos jovens carregam histórias pesadas, e às vezes o que eles precisam é apenas de alguém que os escute e acredite neles”, diz.

Nayra já lecionou em diferentes escolas e também atuou com alunos em situações de vulnerabilidade social, incluindo jovens que enfrentavam dependência química ou crises emocionais. Em uma dessas situações, lembra de um aluno que chegou à escola em crise de pânico — e encontrou na escuta e no acolhimento um caminho para se acalmar.

Para ela, educar vai muito além do conteúdo das disciplinas.

Nas aulas, mistura literatura, música, poesia marginal e reflexões sobre a vida. Cita artistas brasileiros, provoca debates e incentiva os estudantes a descobrirem seus próprios talentos.

“Existem muitos artistas dentro das escolas. Às vezes o jovem só precisa de alguém que enxergue isso.”

Nayra também acredita que o trabalho voluntário foi fundamental em seu processo de cura pessoal. Durante anos, esteve envolvida em ações sociais e projetos de ajuda ao próximo. Foi nesse movimento de cuidado com outras pessoas que percebeu algo importante: ao ajudar a curar a dor do outro, também estava curando a própria.

A família que construiu também representa uma vitória pessoal. Além do filho, Nayra se orgulha da relação com as enteadas Marcela e Vitória, com quem mantém uma convivência de amizade e carinho.

“Meu sonho sempre foi ter uma família diferente daquela que vivi na infância. E hoje tenho orgulho da família que construímos.”

Fora da escola, ela cultiva hábitos que ajudam a manter o equilíbrio. Gosta de cozinhar para amigos e familiares — desde pratos tradicionais como rabada até pizzadas animadas em casa — e também encontrou na yoga, descoberta há poucos meses, um momento essencial de autocuidado. “É o meu momento de equilíbrio”, conta.

Cristã, Nayra prefere não levantar bandeiras religiosas em sua atuação pública. Para ela, o mais importante é o respeito às diferenças e o acolhimento de todos.“Eu amo meus alunos independentemente da fé que cada um professa.”

A educadora costuma repetir uma frase que resume sua forma de enxergar a vida:“O ontem já foi, o amanhã ainda não chegou. Viva o seu presente.”

Aos 46 anos, Nayra se define como uma mulher guerreira — não perfeita, mas verdadeira. Alguém que acredita profundamente na capacidade de recomeçar.Inspirada por pensadoras como Simone de Beauvoir e por versos da música brasileira, ela resume sua trajetória com uma convicção simples, mas poderosa: nada precisa definir para sempre a história de uma mulher.

“Tudo pode ser reconstruído.”

E talvez seja exatamente essa mensagem que faz tantos jovens se identificarem com ela dentro da sala de aula: a certeza de que, mesmo depois de dias difíceis, ainda é possível escrever novos capítulos.

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